Escritores africanos dividiram mesa na Flip e também falaram sobre a relação entre música e literatura. Festa segue até domingo (14) em Paraty. Bem-humorados, os autores e músicos Kalaf Epalanga e Gaël Faye divertiram a plateia falando de temas sérios como guerra, imigração e racismo no horário nobre da 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta quinta (11).
A noite começou com a mediadora, Marina Person, passando um carão com Kalaf Epalanga. Ela falou do sotaque de Portugal dele, mas ele lembrou que seu português é da Angola. Foi um segundo de tensão que se dissipou com risos gerais.
A brincadeira persistiu a noite inteira. Ao contar a história de sua prisão na Europa, ponto de partida de seu livro, Epalanga refletiu: “Na cadeia, comecei a repensar minha vida. Por que não estudei direito? Não ouvi minha mãe?” e fez todo mundo rir mais uma vez.
Seu livro “Também os brancos sabem dançar” começou a ser pensado no Rio de Janeiro durante o festival black2black, seu primeiro encontro com “o Brasil real”. Ele também é músico, à frente da banda Buraka Som Sistema, de Kuduro, ritmo angolano.
Gaël Faye é mais tímido e mais afiado sobre questões raciais. Seu livro “Meu pequeno país” conta a história de Gabriel, um menino do Burundi que se descobre mestiço após a guerra civil em Ruanda. Para ele, escrever esse livro era questão urgente.
“Muitas vezes o mestiço não existe de fato na literatura.”
“Com este personagem, eu poderia questionar toda a sociedade, não somente do Burundi e de Ruanda. É uma criança mestiça que tem acesso ao mundo dos brancos e dos refugiados. Essa é a história da minha vida. Não de um lado ou de outro da fronteira, mas em cima dela. Com um olhar de contraponto. Eu sou europeu e africano e isso me deixa sempre em questionamento”, diz.
O humor de Epalanga
No meio da discussão, o escritor mostra um trechinho de “Kickboxer”: a famosa dancinha de Jean-Claude Van Damme em um bar.
“A dança desengonçada de Van Damme nesse filme deu origem ao Kuduro. Meu livro iria se chamar ‘Jean-Claude Van Damme inventou o Kuduro’. Fiquei com esse título por quatro meses, mas eu corria o risco de ser deserdado, então troquei”, contou.
Brincadeiras a parte, seu livro é um convite sério. “também os brancos sabem dançar” é, na verdade, um provérbio. “Eu o escolhi porque seu significado é que não devemos julgar ninguém pelas aparências.”
“Essa é a grande questão que domina as notícias na Europa, esse medo absurdo dos imigrantes. O medo de quem chega de fora. E o livro é um convite às pessoas a não julgar pelas aparências porque, embora elas não tenham onde cair mortas, continuam a ser seres humanos”.
Ele falou sobre música, dança, baile funk e fez gracinhas, mas sempre com um fundo político. A política não é por acaso, mas a essência de tudo o que faz.
“Lá em casa a gente só sabe falar de política. Até para falar história de amor a gente põe política no meio. Não há outra forma de expressar a nossa existência sem partir do ponto da política.”
“Eu tenho uma relação bastante resolvida com as fronteiras, mas sei que muitas das vezes o mundo que me ouve não tem. Eu acho que é minha obrigação insistir em determinados assuntos porque o mundo se move muito lentamente.”
A urgência de Gaël
As falas de Gaël foram poderosas ao trazer luz sobre as consequências das guerras. Em sua história, narra os conflitos entre as etnias tutsi e hutus.
“Não existiam etnias em Ruanda nem no Burundi, foi uma construção colonial. Os colonos racializaram as etnias, eles mediam o tamanho do crânio, do nariz. Então os tustis e os hutus têm a mesma religião, falam a mesma língua e vivem os mesmos costumes, mas brigam porque não têm o mesmo nariz.”
“Tiramos a raízes da constituição de um povo e é assim que semeamos os germes da guerra. O livro não é um manual para entender o que aconteceu naquela região. Há todo um trabalho de historiadores pra desconstruir nossas próprias visões. Nós precisamos desconstruir nossa própria história, somos prisioneiros desses conceitos de etnias que não existem, são fábulas importadas da Europa. Meu romance não tem como explicar a origem disso, apenas levantar questionamentos”.
E após esta fala, ele foi ovacionado pela plateia. Cantor de rap, ele se expressa de forma urgente e empolgou o público com todas as suas respostas.
Seu livro surgiu de um pé na bunda – não de uma namorada, mas da gravadora. “Meu livro veio de uma frustração. Eu havia escrito uma música sobre nossa vida banal no Burundi. A gravadora não gostou, achou muito chata. Me senti incompreendido e resolvi escrever um romance”, contou.

Mais detalhes