Mao Tse-Tung, Liu Shaoqi e Xi Jinping passaram pelas salas da 'Academia vermelha'

Mao Tse-Tung, Liu Shaoqi e Xi Jinping passaram pelas salas da ‘Academia vermelha’
Javier Castro Bugarín/EFE – 10.7.2019

Os alunos são catedráticos, doutores e formados, mas na sala de aula não debatem sobre astrofísica ou termodinâmica nuclear, mas sobre como colocar em prática o pensamento do presidente da China, Xi Jinping, na hora de instalar, por exemplo, vasos sanitários sem água no árido norte do gigante asiático.

Esta é só uma das doutrinas ensinadas em uma aula da Escola do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh), fundada há 86 anos e na qual são formados os dirigentes do país.

A hoje majestosa academia, cujo complexo ocupa centenas de hectares junto ao Palácio de Verão de Pequim, foi criada em uma caverna em 1933 pelos revolucionários chineses, que estavam na província de Jiangxi em sua guerra contra os nacionalistas do Kuomintang.

Então conhecida como “A Academia Vermelha”, hoje a escola tem piscina, quadra de tênis, lagos e grandes jardins com templos e estátuas de Mao Tse-Tung, além de esculturas em pedra que expressam seu pensamento ou o de Deng Xiaoping, impulsor da reforma que abriu a China para a economia de mercado.

Por suas salas de aula passaram a maioria dos líderes do país, desde Mao até os presidentes Liu Shaoqi e Hu Jintao e, certamente, Xi Jinping, que também foi diretor da escola entre 2007 e 2013.

Em 2018, a escola se fundiu com a Academia Chinesa de Governo para incorporar um novo objetivo: “investigar e disseminar o pensamento de Xi sobre o socialismo com caraterísticas chinesas para uma nova era”, segundo os documentos do centro.

De fato, nas aulas — onde os estudantes são apresentados a vasos sanitários a seco e até a vídeos do Google sobre bicicletas autônomas —, o pensamento e o nome de Xi são constantemente citados.

O professor lança ideias sobre diversas matérias e as ilustra com frases do líder supremo diante do atento olhar dos seus alunos, a grande maioria homens dentre 40 e 55 anos.

“É um centro de alta pesquisa filosófica e ideológica”, explica o atual presidente da Escola, Chen Xi, por sua vez membro do todo-poderoso Politburo do PCCh.

Wang Gan, vice-diretor de planejamento educativo, explica que a academia se concentra em “disseminar as teorias do marxismo-leninismo” e em “ajudar os chineses a encontrar soluções para as decisões do Comitê Central”.

“Aprendemos o pensamento dialético e tentamos aplicar o conhecimento em prática, tal como defendia Mao”, destaca Yan Xi, um dos seletos professores, que também é catedrático na Universidade Tsinghua de Pequim.

Entre os problemas que mais lhes preocupam, reconhecem que uma das suas prioridades é a de como render a desigualdade social na China de hoje, que nem Marx, nem Lenin imaginavam quando sonhavam com a sociedade ideal comunista.

Apesar das centenas de milhões de chineses que saíram da pobreza nas últimas décadas, as grandes fortunas acumuladas no auge da economia de mercado coexistem ainda com salários ínfimos e condições de vida precárias em algumas partes do país.

Os responsáveis pela escola negam também que o avanço tecnológico e as vertiginosas mudanças da sociedade chinesa nos últimos anos possam estar afastando os jovens do PCCh.

Nas aulas são abordados todos os assuntos, embora seja proibido o debate sobre questões delicadas, como o massacre de Tiananmen de 1989 e a Revolução Cultural (1966-1976), o processo de eliminação da dissidência promovido por Mao para garantir sua liderança.

“Proibimos o debate sobre assuntos que vão contra as decisões ou as diretrizes do partido, embora os estudemos para aprender com eles e passar a história adiante”, explica Wang.

A Escola do Comitê Central de Pequim é o ápice de um sistema formado por mais de 2,5 mil centros distribuídos por todas as províncias do país, onde inclusive algumas empresas estatais possuem suas “academias vermelhas”.

Embora a imensa maioria dos alunos seja de membros convictos do PCCh, a afiliação ao partido não é uma condição indispensável para entrar nestas escolas, embora na prática sejam muito poucos os que conseguem estudar lá sem a carteira da onipotente organização.

Na prestigiada escola da capital, que acolhe os convocados para serem grandes líderes, estudam este ano 1,5 mil alunos, muitos deles hospedados no próprio centro, em quartos humildes, mas confortáveis.

Nas estantes em frente às camas, as obras completas de Xi e os manuais de marxismo-leninismo dividem espaço com um ou outro tratado sobre teologia.

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