Série do JN mostra o desperdício de comida no Brasil e revela que a conscientização sobre o problema pode acontecer quando a criança tem informação e a orientação. Educar é uma das formas de evitar desperdício de alimento
O Jornal Nacional tem mostrado o tamanho do desperdício de comida no Brasil. Mas informação e orientação, desde cedo, podem ser muito úteis para diminuir esse problema.

Uma sala de aula, crianças bem pequenas e um bandejão, com milhares de clientes, lugares tão diferentes, mas iguais no processo de educar. Na escola não é difícil entender: a hora da merenda é a oportunidade para conhecer novos sabores, falar de hábitos alimentares – ao comer frutas, ninguém joga fora a casca.

“O que a gente pode fazer com o que sobra dos alimentos é transformar esses alimentos em coisas novas”, diz a professora Elisângela Lima aos pequenos alunos.
É aí que a lição contra o desperdício começa: o bolo verde, o brigadeiro… Os pequenos vão descobrir que os ingredientes nem sempre são os tradicionais.

O cardápio do bandejão é mais simples. Na Zona Norte de São Paulo, o bom prato oferece almoço a R$ 1: arroz, feijão, frango, salada, tudo misturado a uma pitada de consciência. O restaurante serve todos os dias 1.300 refeições. E, no local, a diferença entre comer muito e comer um pouco menos pode ser uma questão de cor: as bandejas indicam o quanto de comida você vai receber.

“Bandeja laranja a porção é maior. A bege é menor quantidade”, explica o atendente aos clientes.

A de cor laranja tem mais saída: garante uma porção 40% maior do que a bege.

Nem todo mundo come tanto: o motoboy Carlos Eduardo da Silva primeiro pegou a laranja para depois se decidir pela menor.

“Vou pôr pouco, para não desperdiçar. Para não ter desperdício”, explicou.

Dona Wanda dos Santos, de 80 anos, se enganou, e sobrou.

“É comida para duas pessoas”, reconheceu ela.

Mas ela é exceção. O que mais se acha é gente com fome e consciente. A aposentada Almerinda Gonçalves, de 79 anos, não apenas pegou menos quantidade como dividiu com a amiga o que não iria conseguir comer.

“Não pode jogar fora! Se eu jogo fora, vai fazer falta para outro coitado que precisa”, disse.

Na escola, desconfiança: o que será que tem em um bolo verde?

“Esse bolo é de casca de abóbora, por isso que ele é verde”, explicou a nutricionista Priscila Basso.

As crianças não apenas comem algo que iria para o lixo, como também aprendem a fazer. A receita do dia é de brigadeiro de casca de banana. Nessa hora, o aprendizado é duplo.

“Quando você tem conhecimento no preparo do alimento, você acaba desperdiçando menos. Você começa se planejar na compra. Você não compra um monte de coisas que podem estragar ao longo da semana e acaba aproveitando isso de uma certa forma, acaba se planejando melhor”, disse Priscila.

“E se aprende isso de pequeno, será?”, pergunta o repórter.
“Eu acho que sim. Eu acho que sim”, afirma a nutricionista.

“Não importa a faixa etária. A gente sempre vai achar um jeito de mostrar para eles que desperdiçar não pode acontecer, que isso eles têm que levar para a vida”, declarou a professora Elisângela Lima.

Se no fim das contas ainda tem gente que deixa comida no prato, tem que encarar a dona Neci Araujo, ajudante geral do bandejão.

“O que aconteceu, por que você não comeu tudo hoje? Ficou cheia? Quando for assim tem que pedir a bandejinha menor”, disse ela a uma cliente do bandejão que jogou comida fora.

“Eu oriento. Nem posso dar bronca neles, oriento. Falo numa boa com eles, com educação. Tem pessoas que você até dá uma bronquinha maior, mas você sai de fininho, mais nada”, explicou dona Neci.

E assim, cada um do seu jeito, vai tomando mais consciência para não desperdiçar.

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